Panafricanismo
O pan-africanismo é
uma ideologia que propõe a união de todos os povos
de África como forma de potencializar a voz do continente no contexto
internacional. Relativamente popular entre as elites africanas ao longo das
lutas pela independênciada segunda metade do século XX, em parte
responsável pelo surgimento da Organização de Unidade Africana, o
pan-africanismo tem sido mais defendido fora de África, entre os descendentes
dos escravos africanos que foram levados para as Américas até
ao século XIX e dos emigrantes mais
recentes.
Eles
propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes
etnias, divididas pelas imposições dos colonizadores. Valorizavam a realização
de cultos aos ancestrais e defendiam a ampliação do uso das línguas e dialetos
africanos, proibidos ou limitados pelos europeus.
Pan-africanismo
é um movimento político, filosófico e social que promove a defesa dos direitos
do povo africano e da unidade do continente africano no âmbito de um
único Estado soberano, para todos os africanos, tanto na África como em diáspora.
A
teoria pan-africanista foi desenvolvida principalmente pelos africanos na
diáspora americana descendentes de africanos escravizados e pessoas nascidas na
África a partir de meados do século XX como William Edward Burghardt Du
Bois e Marcus Mosiah Garvey, entre outros, e posteriormente levados para a
arena política por africanos como Kwame Nkrumah. No Brasil foi divulgada
amplamente por Abdias Nascimento.
Normalmente
se consideram Henry Sylvester Williams e o Dr. William Edward Burghardt Du Bois
como os pais da Pan-Africanismo. No entanto, este movimento social, com várias
vertentes, que têm uma história que remonta ao início do século XIX. O
Pan-Africanismo tem influenciado a África a ponto de alterar radicalmente a sua
paisagem política e ser decisiva para a independência dos países africanos.
Ainda assim, o movimento tem conseguido dois dos seus principais objetivos, a
unidade espiritual e política da África, sob o pretexto de um Estado único, e
pela capacidade de criar condições de prosperidade para todos os africanos.
Origens do
termo
Pan-Africanismo
ou Panafricanismo, vem do grego, pan (toda) e africanismo (referindo-se a
elementos africanos). A origem do termo é inserido na corrente
filosófica-política historicista do século XIX sobre o destino dos povos. E a
necessidade de a unidade de grandes conjuntos culturais ou “nações naturais” a
partir do expansionismo imperialista ocidental. É discutido se a autoria da
expressão pertence a William Edward Burghardt Du Bois ou Henry Sylvester
Williams.
Definição
Em
meados do século XX o Pan-africanismo foi explicado como a doutrina política
defendida pela irmandade africana, libertação do continente africano de seus
colonizadores e ao estabelecimento de um Estado que buscasse a unificação de
todo o continente sob um governo africano. Alguns teóricos como George Padmore
acrescentaram a partir da Segunda Guerra Mundial, que o governo
panafricano deveria ser gerido segundo as premissas
do socialismo cientifico. Outros teóricos postularam o caminho
do rastafarianismo político, que defende um governo imperial.
Originalmente,
o pan-africanismo centrava-se mais sobre a questão racial que no geográfico.
Ainda hoje há muitos que defendam o caminho radicalista, visto os problemas de
integração do norte da África, que conta com uma historia diferenciada árabe,
em uma unidade cultural coerente com a África Subsaariana. Os objetivos do
panafricanismo atual, ainda que sejam semelhantes aos originais, mudaram.
História
Imagem
de 1890 mostrando o contraste entre norte-americanos ricos e a
pobreza de ex-escravos negros.
No
início do século XIX, a escravatura ainda estava em vigor no sul
dos Estados Unidos, mas não no norte, graças um decreto de 1787, que
estabelecia o limite legal no Rio Ohio. Uma minoria de negros no norte
tinha atingido uma posição socioeconômica próspera e alguns dos representantes
desta classe começaram a desenvolver um sentimento
de fraternidade racial que resultou no movimento "de volta para
a África". Entre eles Paul Cuffe, um negro nascido livre, de pai africano
e mãe ameríndia, que promoveu em 1815 uma tímida experiência de repatriamento
para a África, antecessora da Sociedade Americana de Colonização fundadora
da Libéria, mas os custos da empreitada dissuadiram-no.
No
substrato intelectual que propiciou os movimentos abolicionistas, surgiram
desde o início duas tendências na América do Norte: por um lado, os que
acreditavam que a escravatura iria acabar, de uma forma ou de outra, e que era
necessário encontrar uma casa para ex-escravos na África, a sua terra de
origem. Os britânicos tinham estabelecido uma colônia na Serra
Leoa entre 1787 e 1808, que se destinava às pessoas libertas dos barcos
escravistas que capturavam.
O outro ponto de vista era dos que afirmavam que os descendentes dos
escravos deviam permanecer na América e que inclusive tinham que ser capazes de
uma subsistência independente. Mas, entre os mais acirrados abolicionista, não
se acreditava que a raça negra e a raça branca podiam viver no mesmo espaço e
prosperar sem um perpétuo conflito. Foi levado em consideração e pensado pelas
próprias pessoas negras que, de uma forma ou de outra, seriam exploradas pelo
sistema do homem branco, enquanto não tivessem a sua própria pátria. O elevado
custo de envio de tantas pessoas para a África, fez com que a a segunda opção
prevalecesse.
Descreve o início da
construção do conceito do pan-africanismo no final do século XIX, como o
conceito chega à África e o momento em que o mesmo enquanto movimento
organizado milita pela independência dos estados africanos. Descreve e analisa
como o conceito de pan-africanismo foi utilizado ao longo da história,
especialmente da história do continentalismo africano, como um instrumento
político na tentativa de transformar o continente numa grande federação. E
ainda a disputa entre dois grupos antagônicos, os maximalistas e os
minimalistas, pela definição de que tipo de unidade o continente estaria
inserido culminando na formação da Organização da Unidade Africana (OUA).
O Pan-africanismo e a formação da OUA
O pan-africanismo tem
uma importância vital para a história da África, bem como para a formação da
Organização da Unidade Africana e de sua sucessora, a União Africana. Esse
movimento foi crucial na constituição da identidade negra, tendo sido um
instrumento de unidade de luta destes por reconhecimento, direitos humanos,
igualdade racial e depois como elemento agregador na luta pela independência
(nacionalismo) através de seus congressos, e também como componente aglutinador
para formação de uma instituição continental que também tinha como um dos seus
objetivos a descolonização de todo território africano.
A concepção de unidade dos africanos no período de formação da OUA foi, e é
fomentado até hoje, pelo pensamento pan-africanista. O pan-africanismo
surge como um movimento que tinha como objetivo fazer com que os próprios
negros se entendessem como um povo. Ou seja, o pan-africanismo tinha como
conceito central a idéia de raça, a idéia de que uma vez que uma pessoa tenha a
cor da pele negra ela faz parte de um povo negro. Mas do que um
pensamento o pan-africanismo se constituiu num “movimento
político-ideológico centrado na noção de raça, noção que se torna primordial
para unir aqueles que a despeito de suas especificidades históricas são
assemelhados por sua origem humana e negra”. O pan-africanismo
enquanto movimento político e ideológico organizado surge na verdade fora da
África, ele ganha força com os negros da diáspora que se unem contra a
discriminação e subjugação a que eram sujeitos nas colônias americanas e isso
ainda no século XIX.
Podemos citar como antecedentes desse movimento na África
intelectuais negros, na sua maioria provenientes da África Ocidental sob
domínio colonial inglês. Devido ao intenso intercâmbio entre esses estudantes
africanos ocidentais e pensadores do pan-africanismo, especialmente nos EUA, os
líderes dessa região foram fortemente influenciados, implicando assim num
diferencial em relação as lideranças das outras colônias. Outro aspecto
importante do movimento pan-africano nessa região foi o papel desempenhado pela
imprensa que se incumbiu de difundir as condições subumanas impostas pelo
regime colonial aos negros.
Dessa forma, o movimento pan-africano logo no seu surgimento era composto
por um seleto grupo de africanos com formação no ensino superior nas metrópoles
européias e nos EUA. Sua manifestação se deu de diferentes formas sendo as
principais as conferências e congressos, publicações em jornais, discursos,
livros e formação de associações.
A
fundamentação teórica do pan-africanismo é iniciada por
Alexander Crummell que tem no cerne de seu pensamento o conceito de
raça que por sua vez será a diretriz de sua visão para os negros e para a
África. Para ele a África é a pátria da raça negra e que ele como negro tinha
direito de falar, agir e programar o futuro desse continente como seu legítimo
representante. Para ele a idéia da África enquanto uma unidade
decorria do fato dela ser a pátria dos negros. Esse pensamento de Crummell
manifestado em seus textos inauguraram o discurso do pan-africanismo, pois ele
traduz exatamente a idéia da existência de um povo negro que por sua vez
constituía uma unidade que teria no continente africano o seu lugar. Ele tinha
a concepção, que vai se perpetuar no século XIX, da existência de uma unidade
política natural, ou seja, uma vez que se tenha um único povo reunido num mesmo
lugar consequentemente se tem uma unidade política. Nesse sentido Crummell
também foi considerado um dos pais do nacionalismo africano. Além disso, ele
defendia a adoção da língua inglesa como a língua a ser empregada na construção
de um estado negro africano.
Com essa
atitude estava resgatando ou simplesmente reproduzindo o espírito do
nacionalismo europeu que previa a utilização de uma única língua a fim de
promover a unidade nacional. No caso da África existiam muitas línguas e essas
por sua vez não poderiam suprir essa necessidade, segundo Crummell, de um único
idioma para proporcionar a unidade da África Ocidental, logo o melhor caminho,
na concepção de Crummell, era a adoção da língua inglesa, que na verdade,
também segundo o mesmo era superior e por isso a “melhor opção”.
A trajetória do
pan-africanismo está entrelaçada com a trajetória do nacionalismo africano,
dessa forma assim como o pan-africanismo tem como eixo de sua formação o
conceito de raça o mesmo acontece na construção do nacionalismo na África.
Embora
falemos do conceito de raça como fundamental componente do movimento
pan-africanista e sua influência no nacionalismo africano o objetivo do texto
não é discutir oconceito nem suas implicações e sim situar o leitor das bases
desse movimento e os desdobramentos mais significativos. Entende-se por raça um
conceito diferenciador dos homens que por sua vez, a partir de critérios
físicos ou morais determina a diferença entre os mesmos. Derivado desse
termo surgiu a palavra racismo, este termo está associado a um comportamento
moral de não somente diferenciação a partir do critério de raça, mas a partir
do estabelecimento de uma hierarquia sobre as mesmas onde há a implicação de
que algumas raças seriam inferiores ou superiores as outras resultando num
tratamento diferenciado das mesmas.
Como já
afirmamos o pan-africanismo teve a sua fundamentação teórica a partir do
conceito de raça, dessa forma traz consigo o pressuposto da aceitação dessa
diferenciação e dessa hierarquia. No entanto, vamos continuar esclarecendo os
termos referentes a raça. Kwame Anthony Apiah descreve que existe
uma diferença entre os termos frequentemente utilizados nos assuntos
concernentes a raça, ele diferencia racialismo e racismo. Para este autor o
racialismo seria a:
·
visão de que existem características hereditárias, possuídas por membros de
nossa espécie, que nos permitem dividi-lo num pequeno conjunto de raças, de tal
modo que todos os membros dessas raças compartilhem entre si certos traços e
tendências que eles não têm em comum com membros de nenhuma outra raça.
Esses traços e tendências característicos de uma raça constituem, segundo a
visão racialista, uma espécie de essência racial; e faz parte do teor do
racialismo que as características hereditárias essenciais das “Raças do Homem”
respondam mais do que características morfológicas visíveis com base nas quais
formulamos nossas classificações informais. (Appiah, pág. 33)
O racialismo em si,
não seria um conceito que contemplaria um problema moral e sim cognitivo, pois
se trata de entender um mundo em que existam diferenças, mas um mundo em que
essas diferenças podem ser respeitadas, ou seja, as diferenças não dão lugar a
uma hierarquia moral das diferentes raças, mas cada uma teria o seu espaço e
também a sua contribuição. A partir desse conceito foram formuladas outras
doutrinas denominadas de “racismo”, essas por sua vez já
resultaram em questões morais e até mesmo criminosas ao longo da história.
O
racismo seria distribuído em duas concepções diferentes. O racismo
extrínseco é manifestado quando há distinção moral entre os membros das
diferentes raças por se acreditar que a essência racial implica em certas
qualidades moralmente relevantes e essas diferenças por sua vez justificariam o
tratamento diferencial entre as mesmas. Um exemplo clássico da manifestação
desse tipo de racismo foi aquela dispensada pelo nazismo aos judeus, embora não
houvesse nenhuma justificativa racional para o holocausto ele foi realizado
simplesmente porque o nazismo estabeleceu a ideologia que os judeus fossem
moralmente inferiores e responsáveis pelas mazelas alemãs. Esse fato serve para
ilustrar o racismo extrínseco que muitas vezes foi utilizado para fomentar
ódios infundados contra um outro grupo por motivos apoiados na noção de raça.
Já o racismo
intrínseco
·
sustenta que o simples fato de ser de uma mesma raça é razão suficiente
para preferir uma pessoa a outra. Então esse tipo de racismo estabelece
diferenças morais entre os membros das diferentes raças, por acreditarem que
cada raça tem um status moral diferente, independente das características
partilhadas por seus membros. (Appiah, pág. 35)
O
racismo intrínseco consiste num erro moral, pois ele defende a idéia que por se
pertencer a uma determinada “raça” devo tratar melhor um “semelhante” em
detrimento de outro que não faz parte da mesma “raça”. A
base para o tratamento entre as pessoas deveriam ser baseadas em suas
características morais e não partir da cor de sua pele. A
base da solidariedade racial africana se apóia no racismo intrínseco que
pressupõe que todos os negros por pertencerem a uma mesma raça devem preferir
uns aos outros, devem estar ligados por uma solidariedade semelhante a
solidariedade familiar.
Crummell se
apropriou de uma concepção moderna de raça para justificar a sua visão, a
concepção de hereditariedade biológica e também de “uma nova compreensão do
povo como nação, e do papel da cultura na vida das nações”. Para Appiah Crumell
era racialista e racista e, embora, segundo ele, não se possa ter certeza
quanto a qual tipo de racismo ele manifestava, afirma que quanto ao
pan-africanismo, esse era, supostamente, embasado num racismo intrínseco. E
isso significa que o pan-africanismo se apoiava no fato de uma solidariedade
racial onde aqueles que se enxergavam como negros deveriam ser solidários entre
si, dando preferência ao que fossem de sua própria raça.
Assim
como Crummell, Edward Wilmont Blyden, também tinha a raça como conceito
norteador de seu pensamento e defende a existência de uma civilização
negro-africana. Isso significa que ele condena o racismo extrínseco contra os
africanos, afirmando que os mesmos não eram inferiores, mas possuíam uma
própria história e “elementos constitutivos na construção de uma
personalidade africana”. Explicava as diferenças entre africanos e
ocidentais devido as diferentes circunstâncias que vivenciaram, se opondo a
idéia de que as diferenças seriam resultado de uma inaptidão intrínseca ao povo
africano.
Blyden defendeu em 1884, numa declaração em Freetow, a recolonização da África
a partir da Libéria afirmando que “só em África a raça negra pode realizar o
seu destino”. Para ele a Libéria seria o primeiro estado africano
independente construído por negros e a partir daí construiriam uma grande nação
negra. Demonstrando, assim, um caráter anticolonialista, que só vai
influenciar mais incisivamente o movimento pan-africano após a Segunda
Guerra Mundial.
Outro importante
pensador e difusor do movimento pan-africano foi William Edward Du Bois19,
para ele a raça é um conceito associado à construção histórica comum e ao fator
biológico, no entanto considera o primeiro elemento ainda mais
importante. E que cada raça contribui de forma diferente para a
humanidade, negando assim a inferioridade da “raça negra”, tendo a função de
apresentar a humanidade algo que só ela tem a oferecer. Admite a diferença, mas
nega a existência de superiores e inferiores, defende a idéia de
complementaridade. Para ele a contribuição negra ao mundo não é só diferente,
mas única e valiosa.
Du Bois
foi na verdade a primeira figura a lançar bases teóricas mais organizadas e
práticas para o movimento pan-africano. Estabelecendo sistematicamente as
suas intenções que além de defender uma igualdade racial, incluía a luta
“pela autodeterminação nacional, pela liberdade individual e por um
socialismo democrático.” Opunha-se radicalmente a
idéia utópica de repatriação dos negros dos EUA para retornar a
África, idéia essa fomentada por Blyden e defendida por outro ícone do movimento
pan-africano, o jamaicano Marcus Garvey.
Este foi
responsável pela criação da Associação Universal para o Aprimoramento do Negro
(UNIA) e caracterizado como líder carismático de um movimento que se propôs a
promover a emigração de negros de volta para a África, elegendo, então, a
Libéria como a pátria ideal para início da constituição de uma nação negra.
Segundo Ki-Zerbo “Não hesitou em colaborar com os racistas do Ku Klux Klan,
que como ele, mas por razões inversas, preconizavam que os Negros americanos
fossem mandados para a África”
O
conceito de unidade racial da UNIA envolvia um projeto político e defendia a
idéia de uma “federação imperial geopoliticamente determinada” sendo
possível de ser alcançada pela “unidade imperial entre a Grã-Bretanha e suas
colônias”. Percebemos que até então não existiam no discurso
pan-africanista uma perspectiva anti- colonial e que a idéia de unidade
se restringia basicamente a África Ocidental de colonização britânica,
pelo menos como ponto de partida para o restante do continente.
Embora
pressionado quanto à oposição ao movimento e também problemas na administração
da UNIA, Garvey juntamente com Du Bois representou um papel fundamental na
divulgação da luta dos negros por reconhecimento enquanto uma cultura negra,
não somente nos Estados Unidos da América e Antilhas, mas também na Europa e na
África.
O
pan-africanismo na África de colonização francesa apresentava uma abordagem
diferenciada quanto àquela desenvolvida pelo pan-africanismo de vertente
anglófona, tinha duas principais preocupações: a construção de uma identidade
que fizesse frente às mazelas do colonialismo e a fundamentação
intelectual e política que viabilizasse futuramente a “emancipação política”.
O
pan-africanismo da África francófona difere da de colonização britânica em pelo
menos três aspectos, primeiramente o pan-africanismo nessa região foi elaborado
mais tardiamente em relação ao outro, sendo este no período entre guerras. Além
de permanecerem apenas mais contundentemente em Paris do que propriamente
no continente africano e finalmente ficou mais restrito a um seleto grupo de
intelectuais, artistas e políticos africanos com formação européia.
Podemos
destacar desta vertente a participação fundamental da obra literária como
difusora das realidades da atuação colonial francesa em África, se tornando
assim um instrumento de denúncia na Europa bem representados na figura de René
Maran e André Gide.
A maior
expressão de um movimento pan-africano da África colonial francesa foi o
movimento denominado de negritude. Movimento literário que vem
resgatar as tradições culturais do continente africano. Encontrando em Leopold
Seghor e Aimé Césaire seus principais representantes. A principal
idéia desse movimento é a de que “todos os povos de ascendência africana
tinham um patrimônio cultural comum” Dessa forma esse
movimento também tem sua centralidade na noção de raça.
Assim
como houve uma diferença no processo de colonização das colônias britânicas e
das colônias francesas, houve também uma diferença na forma que se desenvolveu
o pan-africanismo nessas duas vertentes o que também vai delinear o perfil
político continental desses dois blocos que vão ter seu papéis mais definidos
no período que antecedeu as suas independências. No entanto, o movimento
pan-africano passou a se manifestar de forma mais prática quando iniciou a
realização de uma série de congressos, se tornando um dos principais
instrumentos para expansão do movimento.
As
realizações desses congressos manifestam o caráter da primeira etapa do
movimento pan-africano que ainda se encontrava mais restrito aos EUA, Caribe e
Europa, e ainda a uma tímida participação dos negros africanos. Prova disso é
que nenhum dos congressos desse período foi realizado na África e apenas no
último é que foram iniciados discursos anti-coloniais, antes disso os
congressos basicamente promoviam a reunião para reivindicar direitos civis dos
negros e igualdade racial. A primeira Conferência Pan-africana ocorreu em 1900
em Londres e com o intervalo de 19 anos deu-se início a uma série de
realizações de Congressos Pan-africanos, cinco ao todo começando em Paris, 1919
e findando após a Segunda Guerra Mundial, em 1945, esse realizado em
Manchester. Todos organizados por Du Bois.
A
participação nos congressos foi aumentando a medida que os mesmos foram
conquistando a atenção dos negros e de suas lideranças tanto nas colônias
americanas e caribenhas como no prórprio continente africano. O primeiro contou
com a participação de “57 delegados negros dos territórios africanos sob
colonização francesa e britânica, das Antilhas e dos EUA.” No quarto já
contava com com a maior participação até então em congressos, 208 delegados
provenientes de 22 Estados americanos e de uma dezena de países europeus.
As
principais reivindicações realizadas nesses congressos foram a adoção de um “código
de proteção internacional dos indígenas da África; o direito à terra, à
educação e ao trabalho livre; e a abolição dos castigos corporais nas colônial; a
“Declaração ao Mundo” que em sua essência, reclamava para os negros
iguais direitos aos dos brancos; a assinatura de um manifesto final com um
“Apelo ao Mundo” pela igualdade e cooperação de todas as raças e pela justiça e
solidariedade universal e a criação da “Associação Internacional Africana”; um
manifesto que formulava reivindicações para o tratamento dos negros como
homens, caminho condutor para a paz e para o progresso, e também se referia ao
desarmamento mundial e à organização do comércio e indústria, já assumindo
assim uma visão global do mundo. E ainda “a representação e
participação dos negros nos governos que os representam, a justiça adaptada às
condições locais, a extensão. do ensino primário gratuito e um
desenvolvimento do ensino técnico. ”
Após esse período
houve um intervalo extenso na realização dos congressos que só vai voltar a se
realizar com o término da Segunda Guerra Mundial. Nessa ocasião muitos
africanos lutaram pela liberdade, ironicamente, de suas metrópoles e a partir
de então as idéias independentistas foram se tornando cada vez mais concretas.
Durante esse período de permanência dos negros africanos na Europa eles se aperceberam
que além de ter em comum o anseio pela independência da Europa eram vistos como
uma unidade, um povo, os africanos. Esse momento então representou uma maior
identificação com o movimento pan-africano que até então era um movimento de
solidariedade racial mais especificamente fora da África, contra a
discriminação sofrida nas colônias americanas e no Caribe. Agora passa a ser um
instrumento na luta anti-colonial e pela emancipação. Podemos dizer que a
vontade de realizar a independência das colônias européias na África fortaleceu
a idéia de uma identidade africana, de uma unidade do povo negro que agora luta
por um objetivo comum, a descolonização. Esse aspecto fortalece no movimento
pan-africano o espírito de unir forças para alcançar os objetivos.
Verificamos, então, que o conceito de raça foi um “princípio organizador
central” nesse período de aspiração pela descolonização da África, princípio
este que se manifestou tanto no pan-africanismo caracteristicamente
afro-americano e caribenho como no francófono tendo a negritude como seu maior
expoente.
Cabe
aqui ressaltar o quinto Congresso Pan-africano que já será realizado em 1945,
após a guerra, quando já se estava configurando um outro cenário no contexto
internacional, as potências européias enfraquecidas, a formação de uma
bipolaridade política, econômico e ideológica e também a organização e
fortalecimentos de movimentos de resistências anti-coloniais.
O
Congresso Pan-africano de Manchester já pode contar com a presença de “políticos,
sindicalistas e estudantes, basicamente representantes das colônias inglesas e
a independência imediata e incondicional foi enfatizada como a maior de todas
as reivindicações” Destacando a presença de lideranças africanas como
Kwame Nkrumah, Wallace Johnson, da Serra Leoa, e Jomo Kenyatta.
Pela primeira vez
há uma manifestação objetiva e clara anti-colonialista e anti-imperialista,
sendo reivindicada a independência nacional e já um direcionamento, um
alinhamento junto ao socialismo ou socialismo-marxista. George
Padmore “propõea adoção de um manifesto em que se opunha à
discriminação racial e condenava o apartheid na África do Sul além de afirmar
que os africanos estavam resolvidos a serem livres, conclamando a unir-se
contra o colonialismo”. Nesse ponto percebemos nas palavras de Padmore
o componente de unidade racial característico do pan-africanismo. Ele conclama
o povo negro, o povo africano, para se unir contra um inimigo comum, o
colonialismo.
E ainda
nesse congresso a Resolução Final “assumiu a condenação global do capitalismo
europeu nos territórios africanos.”. Adotando claramente
uma postura de influência marxista que vai influenciar inúmeros intelectuais e
líderes políticos africanos tanto nesse período como no pós-independência.
A partir
do Congresso de Manchester foi dado um novo impulso ao Pan-Africanismo, que
agora passa a ter uma participação africana mais direta, o pan-africanismo
passa a ser um instrumento significativo para os africanos que passam a
utilizar a concepção de solidariedade racial para promover a luta pela
independência do continente africano.
Da
realização do V Congresso Pan-Africano houve um intervalo de mais de 10 anos
para a realização de uma série de conferências e congressos que vão acabar
resultando na constituição da OUA, nesse intervalo ocorreu um importante
encontro que foi a Conferência de Bandung. O movimento
pan-africanista vai se tornar mais atuante, especialmente no continente
africano, após a realização dessa conferência que embora não fosse um encontro
estritamente de interesse das colônias africanas tem direta relação ao
continente africano por representar “o marco do aparecimento formal do
Terceiro Mundo como uma unidade ideológica” 42
A
Conferência de Bandung, realizada na Indonésia. entre os dia de 18 a 24 de
Abril de 1955, foi organizada pelos países asiáticos e contou com apoio de
países africanos Etiópia, Líbia, Libéria e Egito. A Conferência se
propunha a promover uma cooperação econômica e cultural afro-asiática, com
o objetivo de formar uma base sólida de oposição ao que era considerado
colonialismo ou neocolonialismo. Pela primeira vez em uma conferência o
racismo e o imperialismo são denunciados como crime e também nessa mesma
conferência o não-alinhamento é estabelecido como um posicionamento político a
ser adotado em oposição aos mesmos. Apesar do não alinhamento todos os países
declararam que eram socialistas, mas não iriam se alinhar ou sofrer
influência Soviética.
Durante o encerramento da Conferência de Bandung ficou previsto a
realização de uma outra conferência a ser realizada no Cairo entre 26 de
Dezembro de 1957 a 1 de Janeiro de 1958. O neutralismo assume um papel
importante nesse momento, pois irá se traduzir numa aproximação com a URSS que
a partir da Conferência do Cairo exercerá uma maior influência comparada a
Bandung nas colônias e ex-colônias africanas já dando inicio a um
posicionamento claramente estratégico da Guerra Fria. E ainda afirma as
intenções de Nasser então presidente do Egito, na conquista de uma liderança na
África do Norte com uma perspectiva pan-arabista.
No
Cairo ocorre uma modificação na denominação dos encontros que deixam de se
chamar conferência entre estados passando a ser conhecido como “Conferências
dos Povos”. O objetivo aqui era possibilitar “a mobilização das forças
revolucionárias contra as soberanias” e mobilizar um maior número de
pessoas ou grupos contra o colonialismo, era uma luta “contra a raça branca”
prioridade que transcendia o princípio nacionalista. Baseando-se no princípio
da autodeterminação, o movimento afro-asiático articula-se com o
sentimento anti-colonialista, procurando encaminhar para a emancipação imediata
todos os povos ainda colonizados. No entanto, esse pensamento
não é hegemônico no continente africano, embora todos os estados africanos
estivessem ávidos pela descolonização, para muitos o nacionalismo era uma
prioridade e a formação de uma unidade nacional baseada naquilo que os unia era
fundamental, logo a autodeterminação dos povos se tornará um ponto de discussão
entre os grupos que irão se desenhar nesse momento para traçar os rumos nesse
novo contexto do continente.
Foram
realizadas três Conferências dos Povos Africanos, a primeira em Acra, em 1958,
em que estiveram no cerne das questões a conquista da liberdade e da
independência, consolidação e criação de uma unidade africana que viabilizasse
a constituição de uma comunidade dos “Estados livres de África” e ainda
investir na reestruturação econômica social deste continente. Foi criado
um secretariado permanente que tinha como principal função “acelerar a
libertação de África” e “desenvolver um sentimento de solidariedade
Pan-Africano”. As bases da futura Organização de Unidade Africana foram
assim lançadas.
A
segunda ocorre em Tunes (Tunísia) em 1960 e a terceira ocorreu em março de 1961
no Cairo já no contexto de definição de dois grupos antagônicos o grupo de
Casablanca e o grupo de Brazzaville. Estes grupos já começaram a ser definidos
a partir do congresso de Manchester, quando foram classificados,
respectivamente, de maximalistas e minimalistas. O maximalismo, com uma postura
definida como mais radical defendia asuperação das fronteiras que haviam sido
definidas pela Conferência de Berlim. E ainda propunha a formação de um Estados
Unidos da África e esteve representado pela liderança de Nukrumah. Já a
concepção minimalista ou moderada não questionava a divisão de fronteiras
estabelecidas na Conferência de Berlim e defendia a constituição de
Estados Nacionais com soberanias internas e externas.
Em
Abril de 1958 foi realizada em Acra outra Conferência de Estados Africanos
Independentes (CEAI) sob a liderança de Nkrumah e de George Padmore, contando
com representantes tanto da África do Norte como da Subsaariana. Já nessa
conferência aparece na ordem do dia “a criação de um organismo
pan-africano “permanente” entre outros itens “a discriminação racial, (...), a
colaboração econômica e técnico-cultural entre os países independentes do
continente negro, a manutenção da paz mundial” . Ainda em Acra
foram estabelecidas diretrizes importantes para o movimento anti-colonialista
com destaque para a reafirmação da não adesão a nenhum bloco político-ideológico.
Já em
Julho, ainda no mesmo ano, ocorreu o Congresso de Cotonou (Benim) reafirmando
um caráter essencialmente pan-africano e anti-colonialista esse congresso tinha
até mesmo “a intenção de constituir o Partido do Reagrupamento Africano”.
Foram deixados bem claro suas pretensões de uma “independência imediata”
e a formação de um “Estados Unidos de África” e ainda “a supressão de
todas as fronteiras estabelecidas após o Congresso de Berlim de 1885, para que
os povos africanos pudessem unir as suas 'complementaridades' e manifestaram
vontade de concretizar a união do Cairo a Joanesburgo”.
Em 1960
foi realizada a 2ª Conferência de Estados Africanos Independentes em Adis Abeba
(Etiópia) em que a proposta de unidade africana antes defendida foi negada pela
delegação da Nigéria que só acatou e concordou com a proposta de criação de
dois bancos interafricanos. Outro aspecto importante foi a aprovação do embargo
à África do Sul incluindo boicotes comerciais e diplomáticos pela sua prática
racial segregacionista, embora essa decisões não tenham chegado a ser colocadas
em prática efetivamente.. Será realizada ainda uma terceira
CEAI em 1962 já no ano anterior a formação da OUA.
A
Conferências dos Povos Africanos de 1961, realizada no Cairo, promovida pelo
grupo de Casablanca vai ressaltar Pratice Lumumba como herói africano e
revelar duas vertentes dentro do Congo: os congueses os quais apoiavam Kasavubu
e Tchombé de imperialistas (grupo associado aos interesses coloniais) e os
lumumbistas (grupo que nega a continuação das relações com os interesses
coloniais e defende os interesses nacionais), liderados por Gizenga de
nacionalistas africanos. Esse é um aspecto importante, pois a questão do Congo
foi um dos pontos de discordância entres os dois grupos já mencionados,
maximalistas e minimalistas.
O Congo
belga se tornou um importante componente nesse período que antecedeu a formação
da OUA. Colonizado pela Bélgica numa orquestração magistral de Leopoldo
II o Congo tem uma história muito particular no continente africano e o
processo de sua independência se tornou marcante na história do continente. Na
década de 1950 por concessão da Bélgica puderam ser formados os primeiros
partidos políticos na colônia e inúmeros movimentos separatistas foram
criados. Nesse mesmo contexto foi criado o Movimento Nacional Congolês na
liderança de Pratice Lumumba que se opunham as tendências
separatistas, defendia o unitarismo, Estado Centralizado, e principalmente
lutava pela independência. Inúmeros conflitos ocorreram no período que
antecedeu a independência dessa colônia e como resultado para acalmar os ânimos
foram convocadas eleições em 1960 que elegeram Lumumba como primeiro-ministro
e, seu opositor, o federalista Kasavubu como presidente da República.
No
entanto, os conflitos não cessaram e os movimentos separatistas permaneceram
sob a liderança de Moisés Tshombe (primeiro-ministro de Katanga) e Kalondji
(primeiro-ministro do Kasai), que associados aos interesses das grandes
companhias mineradoras buscavam enfraquecer Lumumba. Foi um conflito intenso e
inúmeras atrocidades estavam sendo cometidas, foi uma guerra civil das mais
sangrentas testemunhadas na África. A Bélgica enviou pára-quedistas e a ONU uma
Força de Paz. Kasavubu liderou um golpe de Estado que destituiu Lumumba que foi
entregue ao movimento separatista de Katanga e assassinado. A guerra civil
persistiu até 1963, ano de formação da OUA. Tshombe foi nomeado
primeiro-ministro e a fragmentação do Congo não se realizou, pois, com apoio da
Bélgica e dos EUA, ele derrotou os movimentos regionais. Tshombe terminou
destituído do cargo por Kasavubu, que o obrigou a renunciar, no entanto o
próprio Kasavubu foi destituído do cargo num golpe militar em 1965 que passou o
governo do Congo ao coronel Mobuto, que muda o nome do país para
Zaire.
Todo esse processo no Congo contou com a participação dos estados
africanos, especialmente os maximalistas que apoiava Lumumba e após o seu
assassinato, seu sucessor Gizenga, chegando a colocar tropas suas em
território congolês. O grupo minimalista por sua vez apoiava Kasavubu e
posteriormente Tshombe para liderar o Congo. O fato de estarem apoiando
intensamente interesses opostos no Congo, o que na verdade refletia interesses
alheios ao continente africano como os das mineradoras, dos governos europeus,
da ONU, dos EUA preocupado com a nova configuração da Guerra Fria, só vieram
enfraquecer as relações intra-africanas e aprofundar as diferenças entre as
propostas dos estados maximalistas e as dos estados minimalistas.
Embora
houvesse uma divergência entre esses dois grupos a despeito do Congo e da
Argélia, que também vivenciou um processo violento de independência, existiam
diferenças mais profundas referentes à “inserção internacional dos novos
estados africanos e sobre suas relações com as ex-potências coloniais”. Os
minimalistas manifestavam uma postura favorável a perpetuar uma relação mais
estreita com sua antiga metrópole, uma vez conquistando suas independências,
enquanto os estados maximalistas atacavam o grupo adversário os acusando de se
colocarem numa situação neocolonial.
Em Julho
de 1959, em Sanniquellé (Libéria), foi criada a Comunidade dos Estados
Africanos Independentes uma união realizada por Gana, Guiné e Libéria
(maximalistas) que não terá vida longa. Já nessa ocasião vai ficando cada vez
mais claro as dificuldades de manter uma postura radical, quanto a uma
ideologia pan-africansita militante dos maximalistas devido às dificuldades dos
próprios estados recém independentes e a Libéria, por exemplo, ainda bem ligada
aos Estados Unidos. Não havia por parte desses estados estrutura suficiente
para dar suporte a essa empreitada. Além do grupo resistente a essa concepção
que foi crescendo e criando bases mais fortes de oposição.
Uma
evidência dessa afirmação é a realização no ano seguinte da Conferência de
Brazaville, de 15 a 19 de Dezembro, encontro esse de inicialmente doze estados
conservadores recém independentes da França (Congo-Brazzaville, Senegal, Chade,
República Centro-Africana, Costa do Marfim, Níger, Alto Volta, Mauritânia,
Gabão, Benin, Camarões e Madagáscar) que fundaram a União Africana e Malgaxe
(UAM).
Esta se propunha procurar uma espécie de paz africana. Tal paz -
declaravam os Estados da UAM - só podia assentar na não ingerência nos assuntos
internos dos Estados, na cooperação econômica e cultural numa base de igualdade
e, enfim, numa 'diplomacia concertada. (KI-ZERBO, 1972)
No entanto,
a postura adotada por esse grupo de zelar por manter relações pacíficas e de
cooperação coma suas antigas colônias não foi bem aceita por demais estados
africanos e como chega a afirmar Ki-Zerbo “Tratava-se, portanto, na verdade,
de um bloco político que só reunia países francófonos e que a Guiné e o Mali
não tardaram a denunciar como sendo uma “sobrevivência do colonialismo”.
Em contrapartida da
realização da conferência do grupo conservador de Brazzaville foi realizado em
4 a 7 de janeiro do ano seguinte a Conferência de Casablanca que contou
com os maximalistas (Gana, Guiné, Marrocos, Mali, Egito e a Frente de
Libertação Argelina). Foi realizado por iniciativa de Mohammed V (Marrocos)
e buscava apresentar “um cunho afro-asiático”. O principal
resultado desta conferência foi a publicação da “Carta de Casablanca” com
conteúdo expressamente anti-colonialista destacava a necessidade da
formação de uma unidade africana a partir dos estados independentes. O objetivo
era de "fazer triunfar as liberdades em toda a África, de
realizar a sua unidade; e isso no quadro do não alinhamento, da liquidação do
colonialismo e do neocolonialismo sob todas as suas formas.” Esse
grupo assumiu uma postura totalmente avessa a qualquer tipo de vínculo com as
antigas potências coloniais.
Os
estados que já haviam se identificado com a postura minimalista, mas ainda não
tinham se posicionado efetivamente ao lado de nenhum grupo se juntaram ao grupo
de Brazzaville formando um terceiro grupo denominado de Monróvia liderados
pelos presidentes Félix Houphouet Boigny, da Costa do Marfim, e Léopold
Sédar Senghor, do Senegal, e tinham em comum “o respeito ao status
quo territorial” e “a não-interferência na política doméstica”.
Reuniram-se de 8 a 13 de Maio de 1961 e realizaram a Conferência em Monróvia
organizada pela Libéria, Camarões, Nigéria e pelo Togo reunindo também os doze
da UAM, mais a Etiópia, a Líbia, a Serra Leoa, a Tunísia, a Somália. Era também
uma estratégia de reunir forças e “estender à sua influência geográfica
para além da zona lingüística francófona”.
Ainda houve uma
tentativa por parte do Grupo da Monróvia de realizar uma aproximação entre os
grupos de Brazzville e de Casablanca na Conferência dos Estados Africanos Independentes
em Lagos no ano de 1961. No entanto o fato do governo provisório da Republica
Argelina não haver sido convidado para a Conferência culminou num boicote por
parte dos Estados da África do Norte e do grupo de Casablanca não comparecendo
à conferência.
O Grupo
de Casablanca, maximalista, adotou uma postura mais radical durante esse
período não somente em relação às antigas potências coloniais, exigindo a
superação da “balcanização” do continente africano com a revisão de todas as
fronteiras determinadas pelo poder colonial, mas também na relação
intra-africana, conclamando todos os povos africanos a se unirem num Estados
Unidos da África. Dessa forma foi ficando isolado à medida que sua pretensões
não encontravam apoio dos demais estados africanos. Tanto Nukrumah(Gana),
representante do pan-africanismo de Casablanca, como Nasser (Egito), não
levaram em consideração importantes aspectos do contexto em questão. O primeiro
seria que embora as potências coloniais estivessem debilitadas ainda pela
Segunda Guerra Mundial e as determinações da ONU quanto ao fim da
descolonização, estas ainda gozavam de forças para impor restrições a qualquer
projeto que viesse contra seus interesses no continente africano. E a
unificação do continente não era de interesse dos mesmos. Outro aspecto foi à
expectativa criada do grupo de Casablanca quanto ao apoio da União Soviética e
da China Popular que nunca chegou a se efetivar e ainda dos EUA. No entanto em
tempos de Guerra Fria os EUA se posicionou ao lado da potências coloniais a fim
de conter o avanço do comunismo no contexto internacional e isso incluia a
África obviamente63. Então,
o isolamento das posições pan-africanas radicais, junto com o
encaminhamento dos conflitos na Argélia e no Congo e uma mudança na política do
Ocidente acerca da secessão de Katanga, contribuiu para uma reconciliação
e um rapprochemente entre diversos Estados, culminando na
formação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963. (WOLFGANG, 2002, p.
9).
CONCLUSÃO
A formação da
Organização da Unidade Africana vai afirmar basicamente a postura do Grupo de
Monróvia. A conferência que deu origem a instituição abriu oportunidades para
ambos os grupos colocarem suas propostas, sendo vencedor os minimalistas que
defendiam arduamente a não-ingerência nos estados africanos independentes e a
não revisão das fronteiras herdadas do período colonial. Abaixo se segue uma
parte do discurso de “inauguração” da OUA, palavra do imperador Halie Salassie
(Etiópia), figura única do continente africano e governante do país que se
tornou sede da organização,
"Reunimo-nos para reforçar o nosso papel na condução dos assuntos do
mundo e para cumprir o nosso dever para com este grande continente... O
conhecimento da nossa história é indispensável para estabelecer a nossa
personalidade e a nossa identidade de africanos. Proclamamos hoje aqui que a
nossa maior tarefa consiste na libertação definitiva de todos os nossos irmãos
africanos que se encontram ainda sob o jugo da exploração e do domínio
estrangeiro... Sejamos isentos de recriminação e de rancor... Que a nossa acção
(sic) se coadune com a dignidade que reclamamos para nós próprios como
africanos orgulhosos das nossas qualidades próprias, das nossas
características e das nossas capacidades. Temos de evitar, antes de tudo, cair
nas ciladas do tribalismo. Se nos dividirmos entre nós numa base tribal, isso
constitui um convite à intervenção estrangeira, com todas as conseqüências
nefastas que daíadvém. “Reconhecendo que o futuro deste continente reside
em última instância, numa reunião política, devemos reconhecer também que
são numerosos e difíceis os obstáculos a vencer para lá chegar”. “Por
conseqüência, é inevitável um período de transição”... certas organizações
regionais devem assumir funções e satisfizer necessidades que não poderiam ser
satisfeitas de outra maneira. Mas o que existe de diferente aqui é que
reconhecemos estas situações no seu justo valor, isto é, como sucedâneos e
expedientes temporários de que nos servimos até o dia em que tivermos atingido
as condições que tornem possível a unidade africana total ao nosso alcance...
Esta conferência não pode terminar sem a adoção de uma carta africana única.
Não nos podemos separar sem criar uma organização africana una que reúna os
atributos que descrevemos. A carta africana de que falamos deve ficar de
harmonia com a das Nações Unidas." (Ki-Zerbo, 1972).
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